Fera ferida!
André Dutra | 31 de julho de 2009 | 18:39É, o leão maranhense está ferido. Pelo menos é o que aparenta. Saiu de recesso achando que a chapa fosse esfriar, mas esquentaram pra cima dele. Ligações vazaram para a imprensa e conhecemos o vovô Sarney, tão bondoso com o namorado da netinha. O movimento Fora Sarney continua em todo país. Seus aliados começam a entender que não será legal ficar ao lado de uma figura tão execrada pela opinião pública e começam a debandar. Cristovam e Virgílio, em pleno recesso deles mesmos, protocolam mais uma denúncia no Senado.
O coronel maranhense, que tal qual “líderes” do passado estendeu seus domínios para o Amapá, parece bastante incomodado. E o que a fera ferida faz quando está acuada? Ataca.
Em sua ainda publicada coluna de sexta-feira na Folha de São Paulo, o Senador e Presidente do Senado José Sarney escreve de uma forma que me lembra isso: uma fera, velha, ferida e acuada. Sem a majestade de sempre. E assustada com isso. Leiam a íntegra de sua coluna de hoje (31/07/2009):
O fim dos direitos individuais
A TEORIZAÇÃO da arte da política começa com Aristóteles. Ele foi o primeiro a querer saber tudo sobre o seu tempo e como os homens faziam para gerir essa máquina do tempo. Baixinho e careca, não lhe faltava senso de humor. Contam que lhe indagaram por que gostava de belas mulheres, e ele respondeu que só um cego lhe indagaria isso.
Mas larguemos as mulheres e voltemos à política, a arte de harmonizar conflitos, já que é mais esta do que ciência. Hitler tinha horror à política. Na tentativa de evitar a Guerra Mundial, um seu general disse que era chegada a hora da política e ele respondeu: “abomino a política”. O ser autoritário é sempre amargurado com a política: o move a força como solução e, para alcançá-la, veste-se do ressentimento, da inveja, do puritanismo, como uma máscara para esconder a hipocrisia.
O conde Afonso Celso, que escreveu um livro delicioso sobre os anos que passou no Congresso, conta que dois grupos eram constantes em cada legislatura, embora mudassem os seus integrantes: os que viviam à custa da honra da Casa e os que faziam política à custa da honra dos colegas. Em geral, eram sepulcros caiados.
Foi Lênin quem aplicou como método as leis da guerra à política. Ele não a via como um instrumento democrático para a conquista do poder, mas como uma disputa cuja finalidade não era o jogo das ideias, e sim, como na guerra, uma luta entre inimigos não para vencer o adversário, mas exterminá-lo -e nisso toda crueldade devia ser usada. Daí o pensamento dele tão divulgado de que os fins justificam os meios. Quem lê os seus textos sobre o uso do terror fica arrepiado, porque seus exemplos são buscados nos piores momentos do terror da Revolução Francesa, em 1793/94.
Hoje, com a sociedade de comunicação, os princípios da guerra aplicados à política são mais devastadores do que a guilhotina da praça da Concorde. O adversário deve ser morto pela tortura moral disseminada numa máquina de repetição e propagação, qualquer que seja o método do vale-tudo, desde o insulto, a calúnia, até a invenção falsificada de provas.
Como julgar uma democracia em que não se tem lei de responsabilidade da mídia nem direito de resposta, diante desse tsunami avassalador da internet e enquanto a Justiça anda a passos de cágado? Como ficam os direitos individuais, a proteção à privacidade, o respeito pela pessoa humana?
Há alguns anos discutimos esses temas numa Conferência das Nações Unidas em Bilbao. Conclusão: saímos todos certos de que acabou a privacidade e os direitos individuais estão condenados a serem dinossauros de letras nas Constituições.
Desculpem, mas eu creio que o senador como escritor é um péssimo senador e vice-versa. Mas não vou entrar no mérito literário. Dá gosto de ver o senador falando em Aristóteles e no começo da política. Ele deve saber que na Grécia Antiga, a democracia ateniense (por volta de 500 a 350 antes de Cristo) tinha suas fraquezas (por exemplo, apenas homens maiores de idade, livres e mentalmente sãos eram aptos a votar, o que girava em torno de 10% da população de Atenas), mas a nossa também tem (somos um país de muitos analfabetos e currais eleitorais, com apenas aproximadamente 3% da população cursando o nível superior, por vezes de forma sofrível).
Mas o mais interessante da democracia ateniense era a alternância de poder dentro de suas instituições (que não convém explicitar uma a uma aqui). Alternância de poder, que dava novos ares à política de Atenas, evitava a corrupção, o apoderamento pessoal, o enraizamento nos cargos etc. Isso o senador Sarney desconhece ou ignora, afinal lá se vão seus mais de 54 anos no poder brasileiro. Ele é uma instituição. Ele é uma instituição que merece ser extinta, bem como seus pares. Nossa política têm muitos vícios, nossa “nova democracia” foi montada após um duro período ditatorial, do qual Sarney foi contemporâneo. Foi da UDN e presidente da famigerada ARENA, a Aliança Renovadora Nacional (o partido milico conservador da época).
Além disso, outras coisas me chamaram atenção na coluna. Claro que é um visível ato de auto-defesa. OK, mas ficou muito estranho falar de política, se defendendo e colocando no mesmo texto nomes como Hitler, Lênin, Stálin… estranha forma de se falar como os ditadores usavam a violência para destruir a política e para se sobressaírem às denúncias, à população e à política em si. Não sei se foi algo “saudoso” ou se entendi errado. Em momento nenhum ele se coloca como exemplo desses sujeitos, mas pra quem quer se defender, falar de como Hitler “abolia a política” e de violência [e tão estranho como sugestivo.
Continuando este pensamento, ele parte num choramingar de como é injusta a comunicação hoje em dia. Foi um ataque da mente acostumada a dominar os veículos de comunicação à boa anarquia que é a internet. Aqui ele não controla ninguém. Somos livres para nos comunicarmos, proclamarmos nossas idéias e difundi-las para o mundo, praticamente de forma gratuita. Isso amedronta, é muito ameaçador. E a crítica ainda é velada para os veículos de comunicação em geral, que não o deixaram esfriar a opinião pública neste recesso, que de bendito virou pesadelo. Veículos como a própria Folha de São Paulo, que ele é colunista. Até montou uma equipe, segundo esta reportagem, para “defendê-lo” e fazer contra-propaganda em seu favor na internet (twitter, orkut, blogs…).
Por último, me chamou a atenção a frase “Como ficam os direitos individuais, a proteção à privacidade, o respeito pela pessoa humana?”. Como ficam, mesmo, senador? Pergunte às pessoas em estado de miséria no Estado que sua família é dona governa há tantos anos. Veja aqui, aqui e aqui a alguma parte da miséria do Maranhão! É asqueroso pensar que se pode tanto, se tem tanto, em meio a pessoas SOBREvivendo! É lamentável ter um político assim, um retrocesso político em carne e osso, como reportado meses atrás neste blog mesmo (Neste link e também aqui).
O leão está ferido. Está sendo abandonado. É hora de parar com honra, senador. Renuncie. Renuncie não só à Presidência do Senado, renúncie à vida pública. O Brasil agradece.















Pois é! Eles se defendem e só… como se a palavra inócua deles bastasse! Eu sinto vergonha do país ser permissivo, mas sinto raiva de termos esses trastes no poder, que lutam contra a educação de nosso povo. Um povo educado, jamais ficaria tão passivo. A luta é de todos nós e continuaremos nela até o fim! Te amo, Jú!
Fiquei curiosa a respeito das “provas falsas”…é engraçado como as pessoas lembram de seus direitos mto mais facilmente do que de seus deveres…Toda essa fuleragem chega a ser patética…De verdade, me dá vergonha alheia (que nem é tão alheia, pq eu sou cidadã de um país que ainda permite esse tipo de absurdo).
Marcelo, brigadão pelo elogio à matéria! Seu blog anda muito bem também! Continue ajudando o Brasil! Abração!!
“Foi um ataque da mente acostumada a dominar os veículos de comunicação à boa anarquia que é a internet”. Perfeita essa frase. O Sarney só mostrou que é uma criatura selvagem e antiquada ao mundo contemporâneo, um “lobo da estepe”. Também escrevi sobre essa coluna no meu blog.