A paz pelo assassinato: a dicotomia estadunidense

Não poderia deixar de comentar sobre o caso que simplesmente bombou a madrugada toda.: Osama bin Laden morre em mansão no Paquistão e é enterrado no mar (vale dizer que foi bizarra essa história de enterrá-lo nessa rapidez, no mar e com a justificativa – ainda que plausível – dos ritos islâmicos para o tratamento do corpo). Depois de algumas discussões via Facebook e Twitter, resolvi compilar aqui uma breve opinião.


Osama bin Laden

Proliferar paz com assassinato não é uma dicotomia muito “estranha”? O que a morte de Osama bin Laden tem a ver com disseminação da paz mundial? Morre um terrorista, nascem vários outros, o problema é muito mais sistêmico e profundo. Como se esquecer que lá atrás, na década de 1980, bin Laden e os talebãs foram armados, treinados e financiados pelo Governo estadunidense? Até apareceu uma figura que representaria a ele em Rambo 3 e em um final alternativo, John Rambo integra as forças rebeldes afegãs (abaixo)! hehehe.

httpv://www.youtube.com/watch?v=6a8_Hd4he_8

Tudo vai pelo viés, pela lente em que se vê o fato. Diz-se que o vencedor  é quem escreve a História. Entendo, perfeitamente, a alegria do povo dos EUA com a morte de Osama. MAS, daí a se ver (e vender) isso como um ato de paz., o papo muda.. os EUA disseminam ódio e terror há muito tempo. De uma forma diferente dos terroristas da Al Qaeda, mas disseminam.  Já dizia o ditado “Quem planta vento, colhe tempestade”…


Mansão onde bin Laden foi morto

Os EUA pagam o preço por ser a potência hegemônica mundial.  Um preço para manter o capitalismo como sistema em expansão entre os países e para levar a “democracia” além de suas fronteiras. É um preço que a elite paga. Hoje se tem como preço o medo, a paranóia, as guerras etc. Eles não são obrigados a isso, mas é por esse caminho  que definem sua estratégia para continuar como a potência solitária no planeta: se autodeterminar os xerifes do mundo.

Ora, o grande xerife com sua estrela cintilante pendendo no peito tem autoridade para fazer e desfazer. Matar um terrorista mundialmente procurado é problema? Seria um problema se o xerife quisesse resguardar os direitos da humanidade e se pronunciasse contra a barbárie e a carnificina, pondo a Lei e a Justiça como os grandes pilares da sociedade. Osaminha não poderia ter, então, um julgamento e sentença? Mesmo que fosse aquele teatrinho a lá Saddam Hussein no Iraque ou os tribunais de Nuremberg depois da II Guerra Mundial? Veja lá, minha intenção não é a de defender nenhum dos ditadores, terroristas ou seja lá como queiram chamá-los (prefiro continuar a designá-los ditadores e terroristas), mas sim de manter a coerência no discurso com a prática adotada.
Vejam aqui como foram alguns comentários feitos por um paquistanês no Twitter, que alega relatar a movimentação da operação que culminou com a morte de Osama bin Laden.

Vi a “felicidade” de muitas pessoas em comentários aqui na internet, no trabalho e na rua… mas felicidade porque? Isso vai realmente melhorar o mundo? Há ingenuidade suficiente pra se achar que os talebãs, a Al Qaeda ou sei lá quantos outros grupos venham a surgir no futuro só consigam ser operacionais com Osama ou sem Osama, com fulando ou com ciclano? Não fico feliz e nem triste, fico preocupado como as coisas são facilmente empurradas goela abaixo. E o “engraçado” é que tudo foi feito de uma forma que deixa toda essa história cheia de gargalos, questões mal respondidas e transforma isso tudo em um grande circo, uma nova teoria da conspiração. Vide a Globo News e outros veículos de comunicação exibindo uma montagem feita pelo site 4chan como se fosse o corpo de bin Laden.

httpv://www.youtube.com/watch?v=XrOKOfVxqwI&feature=youtu.be
Íntegra do discurso de Obama

Não suporto golpismo e Justiça com as próprias mãos. Matar à revelia seria crime contra a humanidade, violação dos Direitos Humanos. Mas nunca é, quando se trata do vencedor (seja ele quem for). Agora, enterrado no mar, como se terá provas sobre a morte dele? Ele foi executado, tiro na nuca? Morreu durante o tiroteio? Poderia ter sido capturado vivo e levado a julgamento? Não se dissemina paz, semeando ódio.

Mas no fim, fica aquela: “Ao vencedor, as batatas”.

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Lula, Obama e o G20

  

Em Londres, acaba a reunião do G20.

Além da declaração final do encontro, que reune chefes de Estado de nações desenvolvidas e em desenvolvimento, e das ações a serem implementadas, algo que marcou foi o tratamento dado ao Presidente Lula, pelo Presidente dos Estados Unidos, Barack Obama.

Obama falou que Lula "é o cara" e que é o "político mais popular da Terra", entre outras tietagens.

Acho que essa foi a reunião mais divertida, na época mais delicada, que o G20 jamais teve!!!

Ah, só lembrando que o Presidente Lula foi o primeiro presidente latino a ser recebido pelo Obama na Casa Branca. Coisas interessantes podem sair daí (ou não)!

httpv://www.youtube.com/watch?v=eSUn_J__MUk

 

E o vice?

Todo mundo anda falando do presidente dos Estados Unidos (que cumpriu já nos primeiros dias de governo, uma de suas promessas de campanha: em um ano a prisão da base de Guantánamo, em Cuba, será fechada; os julgamentos e cortes militares estão suspensos), mas não há muitos comentários sobre o discreto vice Joe Biden.

Apesar de figura antiga no poder, Joe Biden também também representa uma quebra de paradigma. O Senador é político de carreira e um dos mais experientes no Congresso estadunidense em relação às agendas internacionais. E mais, Joe Biden é um político de carreira, experiente e, pasmem, vive uma vida simples.

Foi eleito aos 29 anos senador do Estado de Delaware (o quinto mais jovem senador eleito). No mesmo ano perdeu a filha e a esposa em um acidente de carro. Dois filhos sobreviveram e ele pensou em renunciar. Foi convencido a continuar no cargo, tomou posse ao lado dos leitos dos filhos e construiu uma sólida carreira na política dos Estados Unidos.

Tem ampla participação na política externa. Entrou no Comitê de Relações Internacionais do Senado em 1975 e, desde 2001, o preside, também atuando contra o narcotráfico, terrorismo e em resoluções de conflitos internacionais.

Ao contrário de muitos de nossos "políticos profissionais" (e também muitos políticos estadunidenses e em geral), Joe Biden não construiu um império de fortuna ao longo dos anos em que serve o país. Vive uma vida de classe média, sem muitos luxos, acostumado a ir da cidade de Wilmington (onde mora e ficou cuidando dos filhos) para Washington de trem, não teve as luzes dos holofotes apontados como, por exemplo, a candidata a vice Sarah Palin.

Aliás, com sua sobriedade, Biden arrasou Palin (mesmo que isso não fosse muito difícil de se fazer) nos debates em que pude assistir e pelo que li daqueles que não acompanhei. Mas arrasou de uma forma serena e elegante, como parece ser o agora Vice-Presidente.

Com Joe Biden, Hillary Clinton, Robert Gates (Secretário de Defesa) e outros membros do Gabinete da Preseidência, Obama terá uma equipe experiente e muito voltada aos assuntos externos. Talvez assim, ele consiga manejar de melhor forma o que Bush não foi capaz: as Relações Internacionais.

As Relações Internacionais, mais do que nunca, são o ponto chave para o contínuo progresso dos países. Seja com resoluções de conflito, expansão de relações comerciais ou defesa dos Direitos Humanos e do Meio Ambiente, as relações entre os países está cada vez mais estreita. E cabe ao país com a maior economia do mundo, ter zelo interno e não tato para manejar as questões internas, evitando assim possíveis consequências futuras para as demais nações, como em um "efeito borboleta".

 

Sim, nós (também) podemos!

E, finalmente, ontem o Presidente Eleito Barack Hussein Obama tomou posse como o 44º presidente dos Estados Unidos da América. (Em português – parte 1, parte 2 e parte 3)

O país com a mais longa e sequencial democracia do planeta, elegeu seu primeiro presidente negro da história. Mas a vitória de Barack Hussein Obama, como vocês podem ter lido e ouvido ao longo da semana e dos meses passados, vai muito além disto.


Vista aérea do Capitólio lotado, durante a posse de Barack Hussein Obama – Washington, DC – EUA

Ano passado conversei algumas vezes sobre toda a simbologia que envolve a figura de Obama. Assistindo a posse ontem e vendo a reação das pessoas na rua, seu discurso e todos os demais acontecimentos deste hitório dia 20 de janeiro de 2009, não pretendo exaurir, mas comentar alguns dos temas mais importantes sobre Obama.

Barack Obama venceu esta eleição mostrando estar muito bem preparado e bem assessorado. Sua campanha foi perfeita (palavra de vários publicitários). O momento histórico o ajudou: duas guerras não solucionadas (Afeganistão e Iraque), uma crise financeira sem precedentes desde 1929 e um dos mais atrapalhados e odiados presidentes em exercício, George W. Bush.

Obama reacendeu, primeiramente, a auto-estima e a vontade de mudança para melhor em seu povo. Em sua campanha, ele apanhou, bateu pouco (até menos do que eu imaginava ser o necessário) e seguiu praticamente o tempo todo com o mesmo tom. A mudança era possível e esta era a hora dela acontecer.

Menos de 46 anos depois do discurso de Martin Luther King Jr, em que ele dizia

"(…) Eu tenho um sonho de que meus quatro filhinhos, um dia, viverão numa nação onde não serão julgados pela cor de sua pele e sim pelo conteúdo de seu caráter"

e 54 anos depois de Rosa Parks negar ceder seu lugar no ônibus a brancos (causando sua prisão e posterior organização de um boicote aos ônibus urbanos, os Estados Unidos elegem um homem negro para seu mais alto cargo administrativo. Historicamente, não se passou um segundo.

Diferentemente do Brasil, os Estados Unidos reconhecem que há um grande problema racial. É histórico e continua sendo um problema. Mas é encarado como tal. No Brasil, finge-se que não há segregação racial, que somos uma mistura que vive harmonicamente, mas ao se olhar a bancada nordestina da Câmara dos Deputados, com seus 5% de deputados negros (sim, no Nordeste, onde a população negra está em torno de 70%), vê-se que estamos tapando o sol com peneiras.

Ele é um rosto diferente para o resto do mundo. Mandou congelar os julgamentos de Guantánamo. Pensa em acabar o embargo a Cuba. É diplomático e busca um governo de unidade nacional, entre republicanos e democratas. É inteligente, estudou nas melhores escolas e Universidades. Viveu uma realidade dura, mãe solteira, criado pela avó, pai estrangeiro e alcoólatra, uma multiracialidade num país segregador. Mesmo assim ele contruiu sua identidade, foi o primeiro presidente negro da Harvard Law Review (uma das mais importantes publicações jurídicas dos EUA), casou-se com outra graduada em direito de Harvard, Michelle e, após o primeiro mandato como Senador dos EUA, tornou-se presidente.

Mas saiamos da questão racial um pouco. Obama é renovação de verdade! Aos 47 anos de idade, representa uma cisão com os governantes de até então: ele não lutou a Guerra do Vietnã.

E antes que este post vire uma coisa abissal, vamos a uma das principais questões a se considerar com esta eleição, ao meu ver. Parece repetitivo por parte deste blogueiro, mas Obama é produto da educação!

O primeiro presidente negro da história dos Estados Unidos, é também o primeiro presidente que ambos os pais possuem doutorado. É um acadêmico, lapidado pela educação, casado com uma acadêmica. Ele é a prova de que todas as camadas sociais de quaisquer sociedades, podem (e devem) usar a ferramenta da educação como instrumento para o progresso.

O excesso de esperança depositado no presidente pode levar a uma grande frustração futura. A priori, vale levar em conta a mitologia e simbologia criada em torno de Barack Hussein Obama. Jovem, negro, carismático, diplomático, orador fervoroso, acadêmico. Não há como se saber se ele será a solução para a Crise atual, os conflitos vários ao redor do mundo, aquecimento global e mudança climática entre outros problemas.
Mas culturalmente, ele já representa uma vitória para o mundo. Um passo a mais para o reconhecimento global de que somos uma espécie igual, em um mundo diferente, com problemas reais e que devem ser solucionados. Um passo a mais para a mudança.

Espero poder falar mais sobre o assunto em breve. Esperarei a semana acabar, digerir um pouco mais a avalanche de informações desde ontem e fazer uma análise melhor sobre o discurso de posse do presidente Barack Hussein Obama.

Nós aqui, em terras tupiniquins, podemos aprender muito com isso. Sim, nós também podemos mudar! Sim, nós podemos renovar nossos quadros políticos e dar uma guinada histórica em nossa recentemente restabelecida democracia. E sim, nós podemos reaver nossa esperança em nosso futuro, educar nossas crianças e jovens e buscar um Brasil melhor.

Sim, nós podemos.