Leonardo Bandarra e a "teimosia pacífica" no MPDFT
André Dutra | 8 de maio de 2009 | 12:54Atualização: até o Procurador-Geral do MPDFT está envolvido nos escândalos de corrupção do DF, conhecidos como Mensalão do DEM. O jeito é uma renovação radical.
O Ministério Público do Distrito Federal e Territórios já foi alvo de elogios neste blog. Elogios bem fundamentados: os trabalhos que o MPDFT vem fazendo ao longo de alguns anos no DF. E grande parte desse trabalho se deve à renovação de procuradores (uma geração que entrou com sede de trabalho e sem “rabos presos”) e pela atuação de Leonardo Bandarra, o procurador-geral de Justiça do DF, baseada na “teimosia pacífica” de Mahatma Gandhi.
A matéria é da Revista Brasília em Dia, datada de 12 de julho de 2008, por Marcone Formiga e Luís Carlos Alcoforado. É extremamente atual (talvez atemporal) e condizente com o que venho tentando explicitar neste blog. O link para a entrevista completa está aqui.
Abaixo, cinco perguntas e respostas que achei mais interessantes:
Luís Carlos Alcoforado – O baixo nível de educação pessoal e cívica, ao mesmo tempo, contribui também para isso?
Leonardo Bandarra – Sim, a questão da educação é fundamental. Vamos fazer o Brasil melhor no futuro, se conseguirmos fazer com que nossas crianças tenham um preparo adequado. Essa deve ser a grande aposta do nosso país nas gerações futuras. O povo, que já está mais adulto hoje, também tem que passar por um processo educativo, mas esse de formação de caráter, até corretivo. A partir do momento em que tivermos uma consciência educacional já formada no seio da população, as pessoas vão saber ter acesso às informações, processá-las e cobrar das autoridades públicas que estas hajam de acordo com a determinação moral e ética que deve pautar toda ação de um agente do Estado.Luís Carlos Alcoforado – A política não é a arte de conquistar e conservar o poder, como queria Maquiavel, nem a cultura da esperteza, como acreditava Dom Corleone?
Leonardo Bandarra – A política é uma arte, que deve ser desenvolvida com responsabilidade e deve ser vista como uma prestação de serviço público. Não é um meio em si. Acredito que o processo político tenha que ser muito bem preservado pela sociedade, porque é um processo necessário. Fazer política partidária é o único caminho, tirando todos os outros, que pode garantir o mínimo de preservação de felicidade, porque é um regime democrático. Não há regime melhor que o democrático, e ele se exerce com políticos. Acredito que hoje faltam, no país, políticos profissionais. Não temos mais políticos que sabem fazer política como tínhamos os grandes oradores no Congresso Nacional, aquelas pessoas que sabiam costurar acordos políticos, no sentido de fazer o bem para o país. Hoje, temos grandes representantes corporativos, que estão no Legislativo defendendo o interesse da categoria, que, muitas vezes, não corresponde ao interesse da coletividade. O político que não tenha essa ligação e que tenha uma responsabilidade com o funcionamento do país deve ser incentivado e deve voltar a existir, em maior número que os poucos que existem hoje.Marcone Formiga – Ou seja, prevalece na política a cultura da esperteza…
Leonardo Bandarra – A política é um reflexo da nossa sociedade. Todos aqueles que criticam os parlamentares devem saber que eles não chegaram ali do nada, e, sim, obtendo votos. Esses votos podem ter sido conseguidos de forma lícita ou ilícita. A gente critica o deputado que comprou o voto, e está certo, mas temos que criticar também o eleitor que se deixou comprar, pois ele também tem parcela de culpa nisso. Esse amadurecimento do processo eleitoral tem que acontecer para que mudemos primeiro os hábitos da nossa sociedade. A gente não deve aceitar mais qualquer meio de tirar vantagens. A partir do momento em que se mudar esse conceito na sociedade, a conseqüência será mudar também o perfil de alguns parlamentares.Marcone Formiga – Isso decorre da falta de educação?
Leonardo Bandarra – Os princípios, como a moral, são ensinados dentro da nossa casa. Nesse aspecto, o Conselho Nacional de Procuradores-Gerais lançou a campanha “O que você tem a ver com a corrupção?”. A campanha, que está sendo repercutida em todos os estados, indaga o cidadão se aqueles pequenos gestos que ele faz dentro de sua casa, em suas relações menores, são um processo de corrupção. Trata-se de uma mudança de hábito: muda você, muda a sociedade.
É isso. Para mudar o que está acontecendo, nós temos que mudar! Saiamos às ruas, mudemos nossos votos, prestemos atenção na nossa política, naqueles que nos rondam. Mudemos e, assim, mudaremos a realidade para melhor.



















